Dona Jandira na produção artesanal
da erva mate no Quilombo do Limitão / Castro - foto
Clemilda
CONDIÇÕES DE VIDA DE PRODUÇÃO E CULTURA
NAS COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS E QUILOMBOLAS NO ESTADO DO
PARANÁ
Clemilda
Santiago
Neto
Historiadora e
Especialista em Educação
Patrimonial
Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de
Oliveira
Em sua
forma de organização social e de produção — quando há
abundância de terras para plantar tanto nos Quilombos como nas
Comunidades Tradicionais Negras existentes no Estado do Paraná
— estas populações seguem normas e critérios praticados pelos
mais antigos, ou seja, pelos fundadores da Comunidade, com quem
aprenderam fazendo questão de manter e preservar este conhecimento.
Possuem a mesma forma de organização cooperativista que
possibilitou no passado e possibilita ainda nos dias de hoje, uma
economia de abundância.
Os
negros escravizados, que ao fugirem das grandes fazendas, se
aquilombando nos matos, com os libertos, alforriados, todos livres,
adotaram uma economia de subsistência,com "pequenos roçados",
produzindo "de tudo para o sustento da família e das criações".
Isso prova que, quando não são obrigados a cultivar grandes
lavouras sob as ordens dos grandes fazendeiros nem enfrentando as
constantes ameaças de madeireiros, que se encontram em cima das
terras históricamente lhes pertencem eles prosperam a ponto de
assustar a aristocracia rural, que vê nessa forma de uso do solo,
baseada na economia familiar, uma ameaça aos latifúndios, que pouca
ou quase nenhuma vantagem oferecem aos seus
trabalhadores.
Com
base na diversificada agricultura praticada nos Quilombos e nas
Comunidades Tradicionais Negras Paranaenses, pelos grupos
familiares que nelas habitam, passam as pequenas lavouras de
mandioca, milho, banana e feijão a ter um relevante destaque no
panorama alimentar da população em comparação com a agricultura
praticada nos latifúndios.
Nas
Comunidades Negras e Quilombolas existe uma fartura que oferece um
contraste com a contínua miséria alimentar da população do
entorno.
A
abundância da mão-de-obra, o trabalho cooperativo e a solidariedade
social aumentam a produção que guardadas em celeiros as quantidades
em sementes destinadas à próxima plantação, ainda sobra algo para
trocar por produtos que não tem e dá até para vender para os
vizinhos.
O MUTIRÃO
É mantido até hoje o
sistema de mutirão, principalmente no Vale do Rio Ribeira entre as
Comunidades Tradicionais Negras e as Quilombolas do Estado do
Paraná e do Estado de São Paulo, pois para se unir é só atravessar
o rio de canoa e participar do mutirão que pode ser para abrir
roça, carpir, colheita de arroz e feijão, limpar as trilhas,
construir canoas, construir casas, limpar as estradas.
Aquele que organiza o mutirão, chama as
pessoas. Cada um leva sua ferramenta. O dono da casa fornece a
alimentação para o dia de serviço e ao final oferece um baile com
sanfoneiro ou, na falta deste, com aparelho de som. Oferece comida
e bebida durante a festa, que vai noite a dentro chegando até as 8
horas da manhã, quando é oferecido às vezes café da manhã e até o
almoço.
Segundo relato de Clarinda da Comunidade de
Remanescentes de Quilombos de João Surá em Adrianópolis,
“a maioria das
pessoas que aqui vive, trabalha mesmo na lavoura, agente faz de
tudo um pouco, aquí nós temos pedreiros, carpinteiros, só que a
gente trabalha para nós mesmos. Se vai pagar alguém de fora para
fazer algo dentro da comunidade, agente mesmos
faz. Plantamos de tudo um pouco como a
banana, a mandioca, o milho, o arroz, a batata-doce, a
cana-de-açúcar, o feijão, a abóbora, o cará. O forte mesmo é a
mandioca para a casa de farinha. Nós criamos porcos e galinhas. A
gente vende pros vizinho ou troca por alguma coisa que falta, tem
algumas pessoas que vem até aqui na comunidade para
comprar”, completa dona Joana a mãe do
Antonio.”
Além do cultivo desses produtos, a produção da
farinha de mandioca é bastante importante para o quilombo. Como
conta Clarinda, a comunidade há muitos anos possui uma casa de
farinha “que já está com todos os equipamentos
em madeira a gente faz a farinha
manual”. Assim como em outros quilombos, o trabalho de
mutirão é muito utilizado: “A gente sempre trabalha em
forma de mutirão, todo mundo junto é um ajudando o outro. A gente
trabalhando unido, a gente consegue muito e mais
rápido. Só que ainda falta muita coisa, até por parte do próprio
Estado mesmo”, diz Clarinda.
A principal delas, segundo
as quilombolas, é a regularização da situação fundiária.
AGRICULTURA
Com relação a esta questão é importante considerar a
forma de uso da terra. Nestas comunidades pratica-se uma
agricultura baseada em formas tradicionais de manejo na qual o uso
de agroquímicos e máquinas agrícolas é reduzido ou
inexistente.
Ocorre um rodízio no uso das terras para os roçados que,
após dois a quatro anos de uso são deixados em descanso para serem
utilizados apenas vários anos depois quando a mata recobre o lugar,
formando-se assim as capoeiras.
Este uso, conforme atestam vários estudos acadêmicos,
possuem características mais ecológicas, pois permitem o descanso
do solo, não poluem os mananciais com agrotóxicos,
etc.
Por conta desta forma de trabalho é importante notar que
isto requer que cada família utilize extensões de terras mais
amplas do que aquelas que mantêm suas roças, posto que a posse
tradicional da terra seja consideravelmente maior do que daquelas
que usam em determinado momento, segundo estudos, de quatro a cinco
vezes mais dependendo da qualidade do solo, regime de chuvas,
etc.
·
Plantio: -
arroz, feijão, milho, mandioca, batatinha, batata
doce;
- verduras: couve, alface, repolho verde e roxo, chicória,
almeirão;
-
frutas: banana, laranja, limão, mexerica, pêssego,
etc;
-
legumes: cenoura, tomate beterraba, pepino e abobrinha;
-
cana de açúcar.
·
Temperos:
pimenta vermelha, cebolinha verde, salsinha, cebola de cabeça,
alho, manjerona, coentro, louro, etc.
·
Criação de
animais: porco, galinha, pato, algumas cabeças de gado, cavalos,
algumas das comunidades quilombolas, criam
peixes.
·
O
trabalho da roça é feito, nestas comunidades, tanto pelos homens
como pelas mulheres.
ÉPOCA DE PLANTIO – FAMÍLIAS NEGRAS –
MUNICÍPIOS PARANAENSES
PRODUTO
ÉPOCA DE
PLANTIO
arroz
set /
out
milho
jul / ago / set / out / nov / dez
feijão das
águas set /
out
feijão da
seca
fev
mandioca
set / out /
nov
batata
doce
jan / dez
amendoim
set / out /
nov
abóbora
jul / ago / set / out /
nov
batatinha
nov / dez
banana
mar /
nov
pepino
ago / set /
out / nov / dez
laranja
set
polkan
ago /
set
pêssego
jul /
ago
quiabo
set / out /
nov
uva
japão
ago
melancia
set /
out
abacate
jan
café
mar
PRODUTO
ÉPOCA DE
PLANTIO
arroz
abr /
mai
milho
abr /
mai
feijão das
águas
set
feijão da
seca
jun
mandioca
set / out /
nov
batata
doce
jun /
nov
amendoim
fev / mar / abr /
set
abóbora
jul / ago / set / out /
nov
batatinha
fev /
mar
banana
mar /
nov
pepino
ago / set / out / nov / dez
laranja
ago / set / dez
polkan
ago /
set
pêssego
set /
out
quiabo
jan / fev /
mar
uva
japão
abr /
mai
melancia
mai /
set
abacate
out
café
fev
CULTURA
PRESERVADA
As Comunidades Tradicionais Negras e Quilombolas Paranaenses, aos
poucos, despertam para a importância de sua cultura buscando
espaços na sociedade que os manteve isolados e discriminados, na
conquista de valorização e reconhecimento.
Certo é, que esta população, procura resgatar e resguardar antigas
tradições e, em muitas comunidades:
·
Festas e
danças lembram os ritmos da África trazidos pelos antepassados
como, por exemplo, Romaria de São Gonçalo, Romaria do Divino, Mesa
dos Anjos, Recomendação das Almas (com a utilização da Matraca),
Terço Cantado, etc.
·
Preservam o
artesanato em palha de milho, taboa, fibra de bananeira, retalhos,
madeira, argila.
·
Conservam
algumas das receitas que eram feitas pelos seus
ancestrais.
·
Utilizam-se
da medicina natural através dos chás, banhos, pomadas caseiras de
ervas, raízes e frutos nativos ou cultivados pela
comunidade.
·
Tanto as mulheres como os homens trabalham na casa de
farinha, na agricultura, no monjolo, na moenda de cana e os mais
jovens não dispensam uma partida de futebol, no Trabalho da terra,
em casa os programas de televisão, no entanto, mais importante do
que as informações que vêm de fora, tem sido a tomada de
consciência, cada vez mais forte, da
importância de sua cultura e sua
identidade.
Hoje em dia, as Comunidades Negras sobrevivem de suas atividades na
terra como: plantio, colheita, coleta de frutos nativos regionais e
da produção de subsistência. Sobrevivem também da caça, quando ela
existe, da pesca, da plantação de bananas, do palmito, na região do
litoral paranaense em Guaraqueçaba. No interior do Estado, no
município de Campo Largo, Quilombo de Palmital dos Pretos, os
negros reivindicam um reflorestamento de palmito que existia em
abundância, no local em que se encontra a comunidade, originando o
seu nome: Palmital dos Pretos, “Lugar onde tem muito
palmito e moram os Pretos”, era assim mesmo, diz Dona
Elenita uma das líderes da comunidade.
Nos agrupamentos rurais negros que estão na divisa com o município
de Barra do Turvo/São Paulo, encontramos a atuação de um projeto de
Agro Floresta (Iguatu), preservando o meio ambiente, com a
plantação de palmito e banana, resgatando a forma de mutirão,
semente crioula, sem agrotóxico, e também sem a retirada das
árvores e da mata nativa.
O menor índice de desenvolvimento humano se dá nestas áreas,
justamente onde se encontram os quilombos e as comunidades
tradicionais negras, com alto índice de mortalidade infantil e de
analfabetismo, o que faz destas populações as mais pobres do Estado
do Paraná.
As possibilidades de auto-sustentabilidade torna estas comunidades
totalmente viáveis, mas a falta de infra-estrutura e a atuação de
grileiros em cima de suas terras, é o que impossibilita o seu
desenvolvimento.
As comunidades negras não são subdesenvolvidas, tecnologicamente,
como afirmam alguns, principalmente os mais interessados nas terras
onde se encontram as mesmas, mas exatamente devido ao seu
isolamento dos grandes centros, preservam uma tecnologia e uma
cultura muito própria — os engenhos e moendas em madeira, as
casas de farinha, fornos de barro onde assam pães e carnes —
o que os faz viver em um sistema estruturado e viável, vendendo os
seus produtos ou trocando, quando podem utilizar a terra para
plantar.
·
Cultivo da
cana;
·
Utilização
das moendas de madeira para o trabalho com a cana de
açúcar;
·
Produção do
melaço;
·
Café do caldo
da cana;
·
Produção da
Rapadura;
·
Cultivo da
mandioca;
·
Casa de
farinha;
·
Produção da
farinha de mandioca;
·
Utilização do
Pilão, descascar o arroz, piloar a erva mate,
etc;
·
Monjolo;
·
Produção da
farinha de milho;
·
Forno de
barro;
·
Fogão de
barro;
·
Casa de
barro;
·
Forma de
trabalhar a terra com respeito ao meio ambiente;
·
Produção da
erva mate de forma artesanal – utilizando o forno de barro e
o pilão.