RELATO DE EXPERIÊNCIA NO TRABALHO COM FAMÍLIAS NEGRAS DO MEIO RURAL/PARANÁ

Blog de quilombosnoparana :Comunidades Tradicionais Negras e Quilombolas do Paraná, RELATO DE EXPERIÊNCIA NO TRABALHO COM FAMÍLIAS NEGRAS DO MEIO RURAL/PARANÁ

 

Esta foto registra o momento em que o Senhor Juvenal, líder do Quilombo do Feixo no Município da Lapa, está nos acompanhando na visita às famílias do Feixo-Botiatuva

 

RELATO DE EXPERIÊNCIA NO TRABALHO DE LEVANTAMENTO DOS GRUPOS DE FAMÍLIAS NEGRAS EXISTENTES NO MEIO RURAL NOS MUNICÍPIOS PARANAENSES, NO PERÍODO DE NOVEMBRO DE 2004 À NOVEMBRO DE 2007

 

Clemilda Santiago Neto 

Historiadora e Especialista em Educação Patrimonial

 

 Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de Oliveira 

 

Resumo: Um relato da experiência, adquirida no trabalho de campo na busca por famílias negras moradoras do meio rural vivendo em comunidades nos municípios paranaenses. A questão se desvela de maneira favorável, para se encontrar estes grupos, pela existência de uma vontade política que permeia a estrutura do atual governo e nos mostra também como o pesquisador é um personagem historicamente comprometido, e que suas ações estão politicamente inseridas. Descrevo aqui os acontecimentos que apontaram para um método desenvolvido de forma organizada , os relatos do trabalho efetuado no momento de visita á estas comunidades que habitam o meio rural com observações baseadas nos seguintes itens: A lei do silêncio;" o que preferem não relatar nem discutir ", O esquecimento,  " o que não conseguem lembrar, do que ouviram dos antepassados" o ocultamento " O que é segredo ", também relato aquí a dinâmica dos grupos, as estratégias para permanência  que garantiram a sobrevivência destas Comunidades enquanto grupos familiares.

 

              1.   APRESENTAÇÃO

 

No ano de  2002, no Departamento de Ensino Médio na Secretaria de Estado da Educação, juntamente com os colegas, Maria Aparecida Bremer e Edson Liohiti, começamos a pensar na inclusão da História e Cultura Afro no contexto da sala de aula e também na questão da historiografia paranaense, onde o material dentro da temática era praticamente inexistente. Passamos então a sistematizar as idéias no papel, como por exemplo: a possibilidade da elaboração de um mapa do Estado do Paraná, onde estivessem contemplados todos os quilombos existentes, quais os municípios paranaenses que teriam estes quilombos? Ou então, quem sabe também a criação de um Parque, um “Memorial da Cultura Afro” onde a as crianças os jovens e adolescentes, enfim, a população paranaense pudesse conhecer a Cultura Afro brasileira e a História dos Negros no Brasil, a História da África, para que a partir da escola se pudesse entender o continente africano e se obter um conhecimento maior de  nossas raízes  e da  ancestralidade africana que se encontra em cada um de nós. 

No ano de 2003, estas idéias sistematizadas, como proposta para discussão e a elaboração de um Projeto sobre a História e a Cultura Afro no Paraná, apresentamos para as Entidades do Movimento Negro de nosso Estado , em  reunião realizada na cidade de Curitiba.

Em conjunto com estas lideranças decidimos entregar para a Secretaria de Estado da Cultura  esta proposta entendendo no momento que este trabalho poderia ser  conduzido  pela mesma com a participação da Sociedade Civil organizada, mas não obtivemos resposta alguma.

Quando assume como Secretário Estadual de Educação, Maurício Requião de Melo e Silva, e como Superintendente de Educação a Professora Drª Yvelise Freitas de Souza Arco Verde, sinalizamos com a proposta ainda  para  que o então Secretário, intermediasse o diálogo com a Secretaria de Estado da Cultura, nesta questão.

O Secretário  decide que esta discussão deve  permanecer na Secretaria de Estado da Educação porque  entende que ela será o local pólo para tratar destas questões e irradiá - las para  toda a estrutura de Governo do Estado.

Com a autorização e a assinatura do Secretário de Educação do Estado do Paraná, através da Coordenação de Atividades Complementares/Seed, sob a chefia de Carlos Augusto Soares de Oliveira, começamos o trabalho enviando para  as Secretarias Municipais de Educação em todos os municípios paranaenses um ofício solicitando informações sobre a existência ou não de fazendas históricas da época do Brasil colônia e, a permanência no município, de descendentes dos negros que foram escravizados nestas fazendas, ou então da possibilidade da existência de famílias negras no meio rural, em caso afirmativo qual seria a sua localização e o número de famílias. Alguns municípios como Ivaí, nos responderam afirmativamente, mas, de Ponta Grossa e Guarapuava nenhuma manifestação houve, justamente nos municípios onde as Comunidades existentes já estavam em intensa luta por seu direito á terra e por melhores condições de vida.

Em outubro de 2004, acontece o I Encontro de Educadores Negros, proposto pelo Coletivo de Educação do Fórum de Entidades Negras do Estado do Paraná  realizado em Faxinal do Céu - município de Pinhão, apesar de algumas controvérsias.

Neste encontro os educadores participantes nos passaram informações da existência de famílias negras que viviam em seus municípios no meio rural, seus filhos freqüentando as escolas municipais e também as estaduais .

Começa a  surgir então uma listagem  de grupos familiares negros no meio rural paranaense, ao visitar estes grupos, os mesmos nos indicam outros e a lista cresce ainda mais.

Inicia-se então a discussão sobre como chegar a estas famílias, qual seria a melhor forma, tomam parte destas discussões; Glauco Souza Lobo/Secretaria de Estado da Cultura, Jayro Pereira de Jesus/Secretaria Especial para Assuntos Estratégicos e Clemilda Santiago Neto/Secretaria de Estado da Educação, estas discussões nos levaram a decidir a primeira viagem, em novembro de 2004, para conhecimento de alguns grupos nos municípios de Dr.Ulysses, Adrianópolis e Jaguariaíva.

Quando retornei  estava criado o Grupo de Trabalho  Clóvis Moura, pela Resolução conjunta nº 01/2005 dos Secretários de Estado da Educação/Maurício Requião de Mello e Silva; –  Assuntos Estratégicos/Dr Nizan Pereira; – Cultura/Vera Maria Haj Mussi Augusto; –  Comunicação Social/Airton Carlos Pissetti; – Meio Ambiente/Luiz Eduardo Cheida – em 05/04/05, para o Levantamento básico das Comunidades Tradicionais Negras e de Remanescentes de Quilombos, existentes no Estado do Paraná.

 

 

2.   INTRODUÇÃO

Iniciamos as visitas aos grupos familiares negros localizados nos municípios de Dr.Ulysses, as comunidades de Queimadinho, Três Barras e Varzeão, no município de Adrianópolis à comunidade de João Surá e em Jaguariaíva aos parentes dos negros do Varzeão e Queimadinho. Acompanharam-me nesta viagem a fotógrafa Fernanda Maria de Castro Paula/Secretaria de Comunicação Social e Cristina de Léo/Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Mais tarde, como representante da Secretaria de Estado de Educação, indicada pelo então Secretário Maurício Requião, coordenei a Ação no Campo para o trabalho no GTCM.

As demandas no campo eram principalmente conhecer os problemas enfrentados por estes grupos de caráter social, econômico, educacional e cultural com possibilidade de atendimento pelos programas do Governo Federal, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Seppir e Fundação Cultural Palmares, estabelecidos para estas comunidades como também para subsidiar a construção de um Programa de responsabilidade do Governo do Estado do Paraná direcionado a estas populações para atendimento de suas necessidades básicas estabelecendo com elas práticas para um  desenvolvimento etno-sustentável, com Projetos específicos em cada Secretaria de Governo.

Os relatos aquí publicados, tratarão nada mais e nada menos do que vimos e ouvimos nestas “Comunidades”, enquanto equipes de trabalho o que encontramos e registramos , anotando, fotografando e filmando, bem como  descrever o que  os moradores destas comunidades nos apresentaram:  “as suas histórias”, “suas necessidades básicas”, “suas principais preocupações e reivindicações” 

Bem... encontrar os locais onde vivem as comunidades,  foi um trabalho lento e muito difícil, mas a riqueza de experiências que  vivenciamos  oportunamente, chamaram à atenção, como por exemplo o destaque para a beleza do que resta da floresta de araucárias, os rios quase secos por conta do plantio de pínus, e isto praticamente em todo o território paranaense. Passamos  algum  tempo navegando na Bahia de Guaraqueçaba, utilizando para este trabalho o  barco do Instituto Ambiental do Paraná enquanto  visitávamos as ilhas para verificar a  presença de famílias negras nestes locais, mas só encontramos, maciçamente, essa presença no continente, nos Quilombos de Batuva e Rio Verde e também  seis  famílias de pescadores no bairro do Costão/sede do município.

A visão de árvores, pássaros dos mais variados tipos, as ilhas, o caranguejo de cor alaranjada que se destaca em meio ao mangue preto e a água do mar, dá uma sensação maravilhosa de bem estar e tranqüilidade. 

Os negros moradores dos "Quilombos", das "Comunidades Negras Rurais" e das "Terras de Preto",” Terras de Santo” —  no Paraná, os vários nomes pelos quais são conhecidas essas áreas de resistência, tiveram origens diversas, se estabeleceram em lugares de uma beleza infinita. 

Algumas surgiram em fazendas abandonadas pelos donos, outros pelas doações de terras para ex-escravos, assim como terras foram compradas pelos escravos que foram alforriados. Outros ganharam áreas como reconhecimento da prestação de serviços de escravos em guerras como a do Paraguai, ou então como no caso da Lapa, os negros ganhavam pedaços de terras aos redores da fazenda, onde tinham a sua própria roça de subsistência o que deixava o dono da fazenda e dos escravos sem a responsabilidade de sustentá-los.  

Houve ainda algumas terras que eram de ordens religiosas, deixadas sob a administração de escravos e ex-escravos no início da segunda metade do século XVIII, como o caso da Fazenda Capão Alto no município de Castro.  

As histórias destes grupos  são preservadas, em grande parte, pela comunicação oral.  Com o tempo, as festas populares, a culinária, a devoção a determinados santos e algumas lendas  e mitos são mantidos, mas a sua explicação e significado vão se tornando verdadeiros mistérios, ocultados, ou então, sendo “esquecidos...” quando os moradores mais velhos nestes agrupamentos  morrem.  

A maioria destes grupos familiares negros paranaenses, ainda não sabia que existem outras comunidades no Brasil e também na América Latina inteira, com as mesmas origens, vivendo situações semelhantes. 

 

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quarta 18 março 2009 12:30



4 comentário(s)

  • sergio castilho ribeiro mailto Sáb 10 Dez 2011 09:42
    acompanhei os trabalhos da dra clemilda santiago neto e sua equipe,seus esforços e dedicação .Logo a seguir veio os universitários e a equipe do INCRA DO PARANA,que visitaram as famílias dos bairros São João, córrego do franco,areia branca e joao sura.Parabenizo os integrantes da comitiva que com seu pioneirismo divulgaram uma parcela do Estado que estava esquecido juntamente com sua população autotone.
  • chera po mailto Ter 16 Nov 2010 19:48
    seu escorrega
  • claudio roberto braz mailto Qui 04 Fev 2010 14:14
    minha mae é maria dulce braz da silva e meus avos são antonio braz da silva e rita elias braz da silva. moradores na fazenda osso de porco no parana, que já não existe mais . se alguem tiver informação por favor nos comunique .grato!
  • Egbonmy Conceiç&a mailto Ter 07 Abr 2009 22:03
    Parabéns por mais este BLOG!
    Quanto mais divulgarmos nossas notícias, mais pessoas perceberam que não estamos alienados e SIM avançamos e muito em termos de Comunicação e Divulgação.


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