" APRESENTAÇÃO"

Blog de quilombosnoparana :COMUNIDADES DE REMANESCENTES DE QUILOMBOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS DO PARANÁ, ' APRESENTAÇÃO'

Ah...estou neste momento lembrando o tempo de criança em que eu fazia fogo no fogão de lenha para minha mãe e minha avó...socava serragem e o fogo durava a tarde toda...mantendo o ambiente quentinho...na casa da dona Celina esposa do senhor Antonio Camargo presidente da Associação quilombola de São João no município de Adrianópolis !!!

Foto Vidal Cordeiro Meneguette.

Os relatos aqui apresentados referem-se aos dados e informações, colhidas no trabalho de campo realizado através de visitas às Comunidades Tradicionais Negras e Quilombolas existentes no meio rural em alguns dos municípios paranaenses  - entre os anos de 2004 e 2007 - como integrante do Grupo de Trabalho Clóvis Moura .

Também estaremos incluindo os relatos e fotos do trabalho realizado de 2012 a 2014  como Coordenadora do Programa Brasil Quilombola no Paraná.

As informações foram extraídas de " Cadernos de Campo "utilizados no momento do trabalho de levantamento  para facilitar  a organização e a sistematização de relatório, também fornecer  aos interessados na temática subsídios para uma melhor compreensão de onde estão e como vivem estas Comunidades.

Também foram incorporados aos relatos, observações e reflexões desenvolvidas durante o processo de realização do trabalho.

Em todas as etapas do trabalho foram assegurados os princípios éticos do levantamento pois envolve seres humanos, não se tratando simplesmente de uma coleta de dados. Tanto os relatos, quanto as fotos que registram a presença destes grupos foram feitos com o consentimento das pessoas, das famílias e das comunidades.

Sempre enfatizamos o direito que possuem em  responder ou não o questionário todo ou parte dele, mas em todas as Comunidades em que os trabalhos foram realizados, consentiram e responderam livremente. Registramos algumas dificuldades no Quilombo de "Campina dos Morenos", que só decidiram nos receber depois de um ano do nosso primeiro contato com a comunidade.

A solicitação  do retorno de nossa equipe para efetuar o trabalho com a comunidade, na época, partiu do então Secretário de Cultura do Município de Turvo que muito nos auxiliou e a quem agradecemos.

Clemilda Santiago Neto

Historiadora e Especialista em Educação Patrimonial

clemilda.santiago@gmail.com

(41) 84301435

 Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de Oliveira 

 

 

sábado 14 março 2009 02:35


FORMAÇÃO E LOCALIZAÇÃO – NEGROS NO PARANÁ

Blog de quilombosnoparana :COMUNIDADES DE REMANESCENTES DE QUILOMBOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS DO PARANÁ, FORMAÇÃO E LOCALIZAÇÃO – NEGROS NO PARANÁ

Dona Vidoneta - Quilombo de São Roque / município de Ivaí - colhendo o milho que ela plantou ao redor de sua casa - foto Clemilda

 

FORMAÇÃO E LOCALIZAÇÃO DAS COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS E QUILOMBOLAS NO PARANÁ

 

     Clemilda Santiago Neto 

Historiadora e Especialista em Educação Patrimonial

 

Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de Oliveira 

 

Os descendentes dos africanos que foram escravizados nas fazendas que existiam no estado do Paraná se estruturaram em grupos familiares no meio rural em alguns dos municípios paranaenses principalmente:

·     Nos caminhos que hoje conhecemos historicamente como sendo o caminho das tropas – para condução de gado e de comércio.

·     Nos caminhos onde se localizavam os antigos garimpos tanto de ouro de lavagem como os de mina, região conhecida como o Vale do Ribeira, onde estão as maiores concentrações de negros tanto do lado do Estado de São Paulo como do lado do Estado do Paraná.

·     Nos caminhos onde se buscavam nos rios as pedras preciosas (sertão de Tibagi), também pelos caminhos do litoral por aonde chegavam os navios negreiros, Paranaguá, Antonina e Morretes, aos locais de guarda da mercadoria, ilhas ao longo da costa marítima paranaense como no município de Guaraqueçaba – Ilha das Peças (onde eram vendidas as peças, os escravos) história contada pelos quilombolas, professor Hilton do Quilombo de Batuva e professor Antonio do Quilombo do Rio Verde, por conta da proibição do tráfico negreiro pela Inglaterra, e de lá, iam sendo distribuídos pelo território paranaense, da época.

Hoje, esta população está distribuída em mais ou menos 100 (cem), comunidades, população esta que sobrevive da agricultura de subsistência, caça, pesca e extrativismo, sendo que somente 36 destes grupos familiares foram certificados pela Fundação Cultural Palmares, já que se auto declararam como Comunidades de Remanescentes de Quilombos.

Nas Comunidades de Remanescentes de Quilombos e nas Comunidades Tradicionais Negras, os mais jovens poucos aprenderam para contar as histórias dos seus antepassados, somente os negros (as) mais velhos é que ainda relatam como foi a fuga do cativeiro quando esta houve e foi contada pelos ancestrais que fundaram a comunidade ou o quilombo e das outras famílias negras, que depois foram chegando, ou ainda como houve a aproximação das famílias por afinidade de produção, casamentos, veneração ao santo, às novenas, às romarias, etc.

Chegar aos núcleos onde vivem estas populações é possível somente depois de uma demorada viagem por caminhos difíceis ao longo de estradas em terreno acidentado, algumas completamente sem estradas, as vias de acesso são as picadas depois de muitas horas, duas... três... a pé.

 Os mais velhos não deixam o quilombo para visitar as cidades, somente em casos de tratamento de saúde, para fazer documentos, ou então receber a aposentadoria.

 A população mais jovem já começa a se interessar pelo mundo em volta, e alguns já venderam seus pedaços de terra, ou então cerraram as portas de suas casas e foram embora em busca de melhores condições de vida nas cidades mais próximas e até na capital do Estado – Curitiba, engrossando as favelas e as invasões nos terrenos das prefeituras, ficando em condições de vida ainda piores, formando as comunidades negras urbanas para as quais inexistem programas de atendimento definidos, ou seja, com recorte étnico, é o caso dos municípios de Castro, Campo Largo, Ventania, Arapoti, Guarapuava, Pinhão, Curitiba, etc.

 

              COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO PARANÁ    (certificadas)

    MUNICÍPIOS                  COMUNIDADES                         R/U   famílias  habitantes

 

1. ADRIANÓPOLIS

    Comarca Bocaiuva Sul      01. João Surá                           R       41      149

                                                      02. Praia do Peixe                   R        6        23

                                        03. Porto Velho                         R       15       66

                                        04. Sete Barras                         R       18       73

                                        05. Córrego das Moças             R       20       68

                                        06. São João                            R       17       62

                                        07. Córrego do Franco             R        77     208

                                        08. Estreitinho                          R       12       33

                                        09. Três Canais                        R         4       13

 

2. BOCAIÚVA DO SUL

    Comarca Bocaiuva Sul     10. Areia Branca                       R       16       30

 

3. CAMPO LARGO

    Comarca Campo Largo    11. Palmital dos Pretos            R       27      108

 

4. CANDÓI

    Comarca Guarapuava     12. Despraiado                         R        42      210

                                                    13. Vila Tomé                          R        21      110

                                       14. Cavernoso                          R        12       86

 

5. CASTRO

    Comarca Castro

                                       15. Serra do Apon                    R       49      176

                                       16. Limitão                               R       30      106

                                       17. Tronco                                R      15        62

                                       18. Mamãs                                R       8        27

 

6. CERRO AZUL

    Comarca Cerro Azul       18. Mamãs                                 R      11       38

 

7. CURIÚVA

    Comarca Curiúva           19. Água Morna                         R       19        61

                                                   20. Guajuvira                             R       38      132

 

8. DR. ULYSSES

    Comarca Cerro Azul       21. Varzeão                               R         8        30

 

9. GUAÍRA

    Comarca Guaíra            22. Manoel Ciríaco dos Santos  R         7        42

 

10. GUARAPUAVA

      Comarca Guarapuava   23. Invernada Paiol de Telha    R        85      325

 

11. GUARAQUEÇABA

      Comarca Antonina       24. Batuva                                  R        24       94

                                     25. Rio Verde                             R        22       80

 

12. IVAÍ

      Comarca Imbituva         26. Rio do Meio                          R        22       84

 

 

                                     27. São Roque                           R        51      203

 

13. LAPA

      Comarca Lapa                28. Restinga                              R        37      271

                                     29. Feixo                                   R        84      343

                      

 


 

 

 



 

 


 

sexta 20 março 2009 21:35


CONDIÇÕES DE VIDA, DE PRODUÇÃO E A CULTURA

Blog de quilombosnoparana :COMUNIDADES DE REMANESCENTES DE QUILOMBOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS DO PARANÁ, CONDIÇÕES DE VIDA, DE PRODUÇÃO E A CULTURA

Dona Jandira na produção artesanal da erva mate no Quilombo do Limitão /  Castro - foto Clemilda

 

CONDIÇÕES DE VIDA DE PRODUÇÃO E  CULTURA

NAS COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS E QUILOMBOLAS NO ESTADO DO PARANÁ 

 

Clemilda Santiago Neto 

Historiadora e Especialista em Educação Patrimonial 

 

Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de Oliveira 

 

Em sua forma de organização social e de produção — quando há abundância de terras para plantar tanto nos Quilombos como nas Comunidades Tradicionais Negras existentes no Estado do Paraná — estas populações seguem normas e critérios praticados pelos mais antigos, ou seja, pelos fundadores da Comunidade, com quem aprenderam fazendo questão de manter e preservar este conhecimento. Possuem a mesma forma de organização cooperativista que possibilitou no passado e possibilita ainda nos dias de hoje, uma economia de abundância.

Os negros escravizados, que ao fugirem das grandes fazendas, se aquilombando nos matos, com os libertos, alforriados, todos livres, adotaram uma economia de subsistência,com "pequenos roçados", produzindo "de tudo para o sustento da família e das criações". Isso prova que, quando não são obrigados a cultivar grandes lavouras sob as ordens dos grandes fazendeiros nem enfrentando as constantes ameaças de madeireiros, que se encontram em cima das terras históricamente lhes pertencem eles prosperam a ponto de assustar a aristocracia rural, que vê nessa forma de uso do solo, baseada na economia familiar, uma ameaça aos latifúndios, que pouca ou quase nenhuma vantagem oferecem aos seus trabalhadores.

Com base na diversificada agricultura praticada nos Quilombos e nas Comunidades Tradicionais Negras Paranaenses, pelos grupos familiares que nelas habitam, passam as pequenas lavouras de mandioca, milho, banana e feijão a ter um relevante destaque no panorama alimentar da população em comparação com a agricultura praticada nos latifúndios.

Nas Comunidades Negras e Quilombolas existe uma fartura que oferece um contraste com a contínua miséria alimentar da população do entorno.

A abundância da mão-de-obra, o trabalho cooperativo e a solidariedade social aumentam a produção que guardadas em celeiros as quantidades em sementes destinadas à próxima plantação, ainda sobra algo para trocar por produtos que não tem e dá até para vender para os vizinhos. 

 

O MUTIRÃO

É mantido até hoje o sistema de mutirão, principalmente no Vale do Rio Ribeira entre as Comunidades Tradicionais Negras e as Quilombolas do Estado do Paraná e do Estado de São Paulo, pois para se unir é só atravessar o rio de canoa e participar do mutirão que pode ser para abrir roça, carpir, colheita de arroz e feijão, limpar as trilhas, construir canoas, construir casas, limpar as estradas.

Aquele que organiza o mutirão, chama as pessoas. Cada um leva sua ferramenta. O dono da casa fornece a alimentação para o dia de serviço e ao final oferece um baile com sanfoneiro ou, na falta deste, com aparelho de som. Oferece comida e bebida durante a festa, que vai noite a dentro chegando até as 8 horas da manhã, quando é oferecido às vezes café da manhã e até o almoço.

Segundo relato de Clarinda da Comunidade de Remanescentes de Quilombos de João Surá em Adrianópolis, a maioria das pessoas que aqui vive, trabalha mesmo na lavoura, agente faz de tudo um pouco, aquí nós temos pedreiros, carpinteiros, só que a gente trabalha para nós mesmos. Se vai pagar alguém de fora para fazer algo dentro da comunidade, agente mesmos faz. Plantamos de tudo um pouco como a banana, a mandioca, o milho, o arroz, a batata-doce, a cana-de-açúcar, o feijão, a abóbora, o cará. O forte mesmo é a mandioca para a casa de farinha. Nós criamos porcos e galinhas. A gente vende pros vizinho ou troca por alguma coisa que falta, tem algumas pessoas que vem até aqui na comunidade para comprar”, completa dona Joana a mãe do Antonio.” 

Além do cultivo desses produtos, a produção da farinha de mandioca é bastante importante para o quilombo. Como conta Clarinda, a comunidade há muitos anos possui uma casa de farinha “que já está com todos os equipamentos em madeira a gente faz a farinha manual. Assim como em outros quilombos, o trabalho de mutirão é muito utilizado: “A gente sempre trabalha em forma de mutirão, todo mundo junto é um ajudando o outro. A gente trabalhando unido, a gente consegue muito e mais rápido. Só que ainda falta muita coisa, até por parte do próprio Estado mesmo”, diz Clarinda.

A principal delas, segundo as quilombolas, é a regularização da situação fundiária.

 

AGRICULTURA 

Com relação a esta questão é importante considerar a forma de uso da terra. Nestas comunidades pratica-se uma agricultura baseada em formas tradicionais de manejo na qual o uso de agroquímicos e máquinas agrícolas é reduzido ou inexistente.

Ocorre um rodízio no uso das terras para os roçados que, após dois a quatro anos de uso são deixados em descanso para serem utilizados apenas vários anos depois quando a mata recobre o lugar, formando-se assim as capoeiras.

Este uso, conforme atestam vários estudos acadêmicos, possuem características mais ecológicas, pois permitem o descanso do solo, não poluem os mananciais com agrotóxicos, etc.

Por conta desta forma de trabalho é importante notar que isto requer que cada família utilize extensões de terras mais amplas do que aquelas que mantêm suas roças, posto que a posse tradicional da terra seja consideravelmente maior do que daquelas que usam em determinado momento, segundo estudos, de quatro a cinco vezes mais dependendo da qualidade do solo, regime de chuvas, etc.

·      Plantio: - arroz, feijão, milho, mandioca, batatinha, batata doce;

   - verduras: couve, alface, repolho verde e roxo, chicória, almeirão;

   - frutas: banana, laranja, limão, mexerica, pêssego, etc;

   - legumes: cenoura, tomate beterraba, pepino e abobrinha;

   - cana de açúcar.

·      Temperos: pimenta vermelha, cebolinha verde, salsinha, cebola de cabeça, alho, manjerona, coentro, louro, etc.

·      Criação de animais: porco, galinha, pato, algumas cabeças de gado, cavalos, algumas das comunidades quilombolas, criam peixes.

·      O trabalho da roça é feito, nestas comunidades, tanto pelos homens como pelas mulheres.

 

                                                  

ÉPOCA DE PLANTIO – FAMÍLIAS NEGRAS – MUNICÍPIOS PARANAENSES

PRODUTO             ÉPOCA DE PLANTIO

arroz                        set / out        

milho                       jul / ago / set / out / nov / dez

feijão das águas      set / out                      

feijão da seca          fev                                                                 

mandioca                set / out / nov     

batata doce             jan / dez

amendoim               set / out / nov             

abóbora                   jul / ago / set / out / nov    

batatinha                 nov / dez

banana                    mar / nov     

pepino                     ago / set        / out / nov / dez

laranja                     set                

polkan                     ago / set                     

pêssego                   jul / ago                      

quiabo                     set / out / nov      

uva japão                ago                     

melancia                 set / out        

abacate                   jan                                                                        

café                         mar                                                        

  

ÉPOCA DE COLHEITA – FAMÍLIAS NEGRAS NO MEIO RURAL MUNICÍPIOS PARANAENSES

PRODUTO             ÉPOCA DE PLANTIO

arroz                        abr / mai                                                 

milho                       abr / mai                                                 

feijão das águas      set                

feijão da seca          jun                                     

mandioca                set /       out / nov      

batata doce             jun / nov       

amendoim               fev / mar / abr / set                  

abóbora                   jul / ago / set / out / nov    

batatinha                 fev / mar                                                              

banana                    mar / nov     

pepino                     ago / set / out / nov / dez

laranja                     ago / set / dez

polkan                     ago / set                     

pêssego                   set / out        

quiabo                     jan / fev / mar                                                              

uva japão                abr / mai                                                

melancia                 mai / set                     

abacate                   out        

café                         fev                                                                 

                            

   CULTURA PRESERVADA

As Comunidades Tradicionais Negras e Quilombolas Paranaenses, aos poucos, despertam para a importância de sua cultura buscando espaços na sociedade que os manteve isolados e discriminados, na conquista de valorização e reconhecimento.

Certo é, que esta população, procura resgatar e resguardar antigas tradições e, em muitas comunidades:

·      Festas e danças lembram os ritmos da África trazidos pelos antepassados como, por exemplo, Romaria de São Gonçalo, Romaria do Divino, Mesa dos Anjos, Recomendação das Almas (com a utilização da Matraca), Terço Cantado, etc.

·      Preservam o artesanato em palha de milho, taboa, fibra de bananeira, retalhos, madeira, argila.

·      Conservam algumas das receitas que eram feitas pelos seus ancestrais.

·      Utilizam-se da medicina natural através dos chás, banhos, pomadas caseiras de ervas, raízes e frutos nativos ou cultivados pela comunidade.

·      Tanto as mulheres como os homens trabalham na casa de farinha, na agricultura, no monjolo, na moenda de cana e os mais jovens não dispensam uma partida de futebol, no Trabalho da terra, em casa os programas de televisão, no entanto, mais importante do que as informações que vêm de fora, tem sido a tomada de consciência, cada vez mais forte, da importância de sua cultura e sua identidade.

Hoje em dia, as Comunidades Negras sobrevivem de suas atividades na terra como: plantio, colheita, coleta de frutos nativos regionais e da produção de subsistência. Sobrevivem também da caça, quando ela existe, da pesca, da plantação de bananas, do palmito, na região do litoral paranaense em Guaraqueçaba. No interior do Estado, no município de Campo Largo, Quilombo de Palmital dos Pretos, os negros reivindicam um reflorestamento de palmito que existia em abundância, no local em que se encontra a comunidade, originando o seu nome: Palmital dos Pretos, “Lugar onde tem muito palmito e moram os Pretos”, era assim mesmo, diz Dona Elenita uma das líderes da comunidade.

Nos agrupamentos rurais negros que estão na divisa com o município de Barra do Turvo/São Paulo, encontramos a atuação de um projeto de Agro Floresta (Iguatu), preservando o meio ambiente, com a plantação de palmito e banana, resgatando a forma de mutirão, semente crioula, sem agrotóxico, e também sem a retirada das árvores e da mata nativa.

O menor índice de desenvolvimento humano se dá nestas áreas, justamente onde se encontram os quilombos e as comunidades tradicionais negras, com alto índice de mortalidade infantil e de analfabetismo, o que faz destas populações as mais pobres do Estado do Paraná.

As possibilidades de auto-sustentabilidade torna estas comunidades totalmente viáveis, mas a falta de infra-estrutura e a atuação de grileiros em cima de suas terras, é o que impossibilita o seu desenvolvimento.

As comunidades negras não são subdesenvolvidas, tecnologicamente, como afirmam alguns, principalmente os mais interessados nas terras onde se encontram as mesmas, mas exatamente devido ao seu isolamento dos grandes centros, preservam uma tecnologia e uma cultura muito própria — os engenhos e moendas em madeira, as casas de farinha, fornos de barro onde assam pães e carnes — o que os faz viver em um sistema estruturado e viável, vendendo os seus produtos ou trocando, quando podem utilizar a terra para plantar.

·      Cultivo da cana;

·      Utilização das moendas de madeira para o trabalho com a cana de açúcar;

·      Produção do melaço;

·      Café do caldo da cana;

·      Produção da Rapadura;

·      Cultivo da mandioca;

·      Casa de farinha;

·      Produção da farinha de mandioca;

·      Utilização do Pilão, descascar o arroz, piloar a erva mate, etc;

·      Monjolo;

·      Produção da farinha de milho;

·      Forno de barro;

·      Fogão de barro;

·      Casa de barro;

·      Forma de trabalhar a terra com respeito ao meio ambiente;

·      Produção da erva mate de forma artesanal – utilizando o forno de barro e o pilão.

 

 

 

 

 


sábado 21 março 2009 07:10


A QUESTÃO DA TERRA E MEIO AMBIENTE NAS COMUNIDADES NEGRAS DO PARANÁ

Blog de quilombosnoparana :COMUNIDADES DE REMANESCENTES DE QUILOMBOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS DO PARANÁ, A QUESTÃO DA TERRA  E MEIO AMBIENTE NAS COMUNIDADES NEGRAS DO PARANÁ

Esta foto nos mostra a beleza de território que é o Quilombo de João Surá / núcleo Poço Grande - nesta parte onde há maior concentração de gado, pois existe abundância de pastagem - foto Clemilda

 

SITUAÇÃO ATUAL DA TERRA NAS COMUNIDADES DE REMANESCENTES DE QUILOMBOS E NAS COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS NO ESTADO DO PARANÁ

 

Clemilda Santiago Neto 

Historiadora e Especialista em Educação Patrimonial

Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de Oliveira

 

Os relatos, que exponho abaixo, foram feitos por moradores das Comunidades Tradicionais Negras e de Remanescentes dos Quilombos, quando da nossa visita a estas populações. Pode-se observar em seus comentários que possuíam muitas terras, porém foram griladas, tomadas, ou compradas por valores muito baixos, e os que resistem até hoje, nos locais de origem possuem poucas ou nenhuma terra, o que torna muito difícil a sua auto-sustentabilidade.

Mostram também as invasões praticadas por fazendeiros e madeireiros que estão cercando, fechando e a cada dia aumentando as suas posses, enquanto que ao mesmo tempo deixam o mínimo de espaço para as Comunidades Negras que enfrentam além de tudo, solicitações de Uso Capião por fazendeiros, madeireiros, além da presença de empresas, como a Cia. Brasileira de Alumínio em terras quilombolas — esta empresa proíbe as famílias negras de plantarem com a alegação de ser dona da área, com certeza ela não veio nos navios que traziam os negros africanos que foram escravizados neste país.

A preocupação das Comunidades Tradicionais Negras e Quilombolas em proteger e recuperar o meio ambiente é devido à plantação de Pinus onde as empresas desmatam de forma desordenada, usando venenos e contaminando as águas. Solicitam ao Poder Público a implementação de Ações voltadas à recuperação das matas ciliares principalmente no Vale do Ribeira. Nas últimas décadas o Vale do Ribeira tem sofrido com o desmatamento das matas que ficam à beira dos rios e protegem o solo, com a água e a biodiversidade. É considerado área de proteção permanente, porém tem ocorrido extração indiscriminada nos últimos anos. Segundo lideranças quilombolas da região, a devastação da mata ciliar traz danos ambientais, como assoreamento dos rios e diminuição da biodiversidade.

  O que vem causar um grande impacto social, pois as famílias destas comunidades têm a pesca como parte de sua alimentação o que também reforça a renda familiar., além disto ainda  a questão dos Transgênicos este esquema de dominação internacional sobre os alimentos que é praticada por grandes empresas americanas, que ameaçam a Segurança alimentar e geram um maior empobrecimento destas populações ocasionando a fome e a miséria, por conta de uma ambição sem limites nem fronteiras.

Revelam ainda que estas comunidades sofrem a falta de respeito praticada pelo poder público como nos casos de Ponta Grossa, Ivaí, Palmas e Dr. Ulysses — em Ivaí as terras quilombolas foram cedidas pelo Governo do Estado (na época) para os imigrantes que estavam chegando. O poder público municipal de Palmas, que ainda hoje, transforma as terras onde  habitam centenáriamente as famílias negras do Quilombo Maria Casturina em lixão e também, reparte a terra onde estão  morando á séculos os negros e loteia aos pedaços o Quilombo Adelaide vendendo bem barato para as pessoas que não tem onde morar.

Todos esses atores, muitas vezes em conjunto, deliberadamente não reconhecem que os negros possuem o direito de posse sobre as terras que ali centenariamente habitam. Há que se fazer referência ainda a situação gerada quando foram incendiadas de forma criminosa 03 (três) casas no quilombo do Varzeão.

Outra questão a ser tratada com muito cuidado é a da Barragem de Tijuco Alto que pode aumentar contaminação por chumbo no Vale do Ribeira. Esta contaminação por chumbo, proveniente de montanhas de resíduos — sobra de antigas mineradoras que permanecem sob ação do tempo — há mais de 20 anos polui as águas do Rio Ribeira e afeta drasticamente a saúde dos moradores do município de Adrianópolis, no norte do Paraná, além de oferecer riscos às comunidades ribeirinhas e ao ecossistema na região do Vale do Ribeira.

 

RELATOS

 

Relato 01: Seu Mirinho - Quilombo Maria Castorina / Palmas que está com 50 anos de idade, diz que os fazendeiros tinham dinheiro, fecharam as terras das quais se apossavam com cercas de arame e taipas feitas pelos negros, enquanto os negros que não tinham dinheiro deixavam tudo aberto pois cada um sabia qual era o seu pedaço — o que não foi respeitado pelos que chegaram depois, principalmente o poder público municipal.

 

Relato 02. Seu Milton - Quilombo Rio do Meio / Ivaí é filho do Sr. Brasílio Ferreira de Lima e de Dona Zulmira Ferreira de Lima. Diz que sua avó veio e casou com um dos Ferreira do Rio do Meio, pois era tudo uma comunidade só, que com a chegada dos imigrantes que foram entrando nas terras da comunidade, dividindo-os ao meio no que hoje se conhece como duas comunidades, São Roque e Rio do Meio.

 

Relato 03. Dona Aurora - Quilombo Apepú / São Miguel do Iguaçu conta que o Sr. Florentino Correia e Djanira Rafaela são pais da Dona Aurora, lider da Comunidade de Apepú no município de São Miguel do Iguaçu. Lúcio Correia, irmão do Florentino e tio da Dona Aurora, é casado com Dona Rosália Correia. A descendência destes dois casais forma os dois núcleos distintos da Comunidade de Remanescentes de Quilombo de Apepú. Djanira Rafaela, mãe e Florentino Correia, pai da Dona Aurora, nascido em Guaraniaçú em 1901, veio para cá ainda criança com o pai, que trabalhava na instalação da linha telegráfica, até Foz do Iguaçu. Quando terminaram de instalar a linha telegráfica, o pai de seu Florentino ganhou 80 alqueires de terra, na localidade chamada Apepú, eram em seis irmãos, a terra foi sendo dividida entre eles, sobrando apenas 20 alqueires, o resto outras pessoas foram se apossando.

 

Relato 04. Dona Sueli - Quilombo Vila Tomé / Candói diz que o vô João, contava que nestas, terra aqui, era os padre que tomava conta da escritura da terra, diz que essa tal escritura era escrita em ouro, se dizia que a terra pertencia aos Santos (da Igreja), se era dos Santos agente podia ficá aqui, e tava protegido, porque a terra, não tinha outros dono, só os Santos. Como a terra era dos Santos, os Pretos não se preocuparam em fazê os documento, ter escritura, legalizar a posse da terra. Anos depois começam a chegar os fazendeiros que começam a tomá as terras pra expulsá os negros, soltavam o gado em grande quantia prá cima da plantação dos Pretos, quando tava grande bunita, dando milho, feijão, soltavam o gado e não sobrava nada.

 

Relato 05. Elisandra - Quilombo Suti / Ponta Grossa conta que a área de mais ou menos 3000 alqueires foi herdada pelos Negros no período da abolição, sendo posteriormente invadida por fazendeiros brancos com apoio de milícias formadas por jagunços e policiais. Houve várias invasões, as últimas no século XX com a ação do Governo do Estado do Paraná através da instalação de colônias de imigrantes europeus.

 

Relato 06. Dona Maria Cecília Lourenço - Quilombo Rio do Meio / Ivaí 70 anos afirma que não há conflitos de terras na área porque “o que tinham para tomar já tomaram tudo”.

 

Relato 07. Seu João - Quilombo Porto Velho / Adrianópolis diz que: uma fazendeira (não quis citar o nome), que comprou 30 a 40 alqueires de terra que pertencia a sua comunidade e que afirma não gostar dos negros do Quilombo, diz para os empregados não ter amizade com os mesmos. Os animais da fazendeira estragam as roças da comunidade e eles deram parte na delegacia, o delegado ficou ao lado da fazendeira.

 

Relato 08. Dona Benedita - Quilombo Palmital dos Pretos / Campo Largo diz que sua tataravó era negra, foi apanhada no mato pelo seu tataravô que apaixonou-se e queria casar com ela, mas ela sempre fugia. Conta ainda que estão há mais ou menos 250 anos sobre esta terra, e que as pessoas que hoje se encontram como proprietários ao redor chegaram depois e foram assumindo as terras e formando grandes fazendas.

 

Relato 09. diz dona Sueli: eles (os fazendeiros), já soltavam o gado para engordar com o que os negros plantava. Quando viram que mesmo assim os negros não saiam da terra, começaram a botar fogo, nos paiol de milho e feijão que foi colhido as veiz, levavam oito dias queimando. Os peões avisavam que era para sair que eles iam queimar as casas com tudo. O velho Tomé diz que saiu com a família a passear em um vizinho meio longe, estavam tomando mate, sentiram o cheiro de queimado, saíram para ver, era a casa dele que ficava numa baixada e estava queimando tudo. Vieram vindo sendo empurrados, a cada vez que construíam era tudo queimado, acabaram ficando neste pedaço onde até hoje vivem! Hoje existem outras famílias no local, mas dos Tomé mesmo são cinco famílias, a maioria está espalhada, foram saindo para Larangeiras, Cantagalo, Guarapuava, etc.

 

Relato 10. Ana Maria - Quilombo Invernada Paiol de Telha / Guarapuava contou-nos que as famílias negras da Comunidade que hoje estão assentadas no município de Guarapuava receberam por herança a fazenda Fundão, que está localizada no município que hoje se conhece como Reserva do Iguaçu, mas foram expulsas do local por grileiros, os quais venderam as terras para a Cooperativa Agrária Entre Rios, que pertence para o município de Guarapuava.

 

Relato 11. Seu Donato - Quilombo Varzeão / Dr.Uyisses relata um fato bastante marcante na comunidade que foi a invasão e queima das casas ocorrido em 1969. Dona Natália, esposa de seu Donato, hoje com 66 anos, conta que sofreu muito com seus sete filhos pequenos, passando a noite toda na chuva. Segundo seu Donato, a empresa do então Governador, Moisés Lupion, chegou na comunidade com 60 homens, policiais e oficial de justiça atirando e atacando para fazer "assombro’ aos moradores. Ele conta que alguns policiais jogavam tudo o que tinha dentro das casas para fora e outros já iam colocando fogo nos cantos das casas. Depois que queimaram as dezessete casas e o paiol da lavoura ainda derrubaram a escola. Nesta mesma noite houve um temporal muito forte e todos os moradores tiveram que passar a noite na chuva, com crianças "encarangadas" de frio. Depois desse episódio, seu Donato disse que seu tio, Antônio Rodrigues de Castro foi até Brasília e lá permaneceu por 14 dias para reclamar ao Presidente e pedir uma solução para o caso, (???). Como foi tudo destruído, os moradores tiveram que recomeçar, reconstruindo suas casas. Por algum tempo, as crianças ficaram sem escola, até que Seu Donato foi falar com o Prefeito Valter Juliano Dório e elas puderam voltar a estudar, mesmo já tendo passado da idade.

 

Relato 12. Seu Luiz - Quilombo do Varzeão / Dr.Ulysses conta que em 1959, os fiscais da Fazenda, com carros de polícia, cangaceiros e jagunços chegaram e foram entrando nas casas, amarrando as pessoas, espancando e prendendo. Seu Luiz diz que seus cinco irmãos e ainda dois sobrinhos foram levados pelos policiais e quando foram chamar o seu Luiz, este tentou fugir. Então quando o pistoleiro gritou "não corra" e atirou na direção dele, seu Luiz diz que saiu rolando e foi para trás de uma capoeira. Achando que ele estivesse morto, os pistoleiros foram embora levando os outros até Capivari. Lá eles conseguiram fugir e ficaram escondidos no mato durante oito dias. Passada a época da política, a família conseguiu, por intermédio de um advogado, permanecer na fazenda.

 

Relato 13. Dona Maria Arlete - Quilombo Adelaide / Palmas relata que uns abandonaram a terra e foram embora — não tinha como sobreviver aqui, outros depois que o prefeito tomou dos negros e começou a vender as terras para outras famílias que não tinham nada a ver com agente e nem onde morar, diz que por um preço simbólico (pra não dizer que doou) aí que os negros começaram a vender de uma vez, e também por falta de estrutura, a solução era ir embora em busca de melhores condições de vida pra família. O terreno onde se encontra a Igreja a tia Adelaide Maria da Trindade doou, pois era parte dela.

 

Relato 14. Dona Elenita Aparecida Machado - Quilombo Palmital dos Pretos / de Campo Largo reclama que a Dona Tereza Maria da Conceição (negra), vendeu suas terras para não negros. A Comunidade quer que o INCRA venha verificar a situação, porque a terra para plantio já é pouca e com esta venda diminui ainda mais. A pessoa que comprou trouxe engenheiros para medir, os Quilombolas não permitem a medição sem a presença do INCRA.

 

 

O PLANTIO DE PINUS E O IMPACTO AMBIENTAL NA VISÃO DAS COMUNIDADES.

 

  No trabalho que realizamos, ouvimos  das famílias negras , habitantes do meio rural paranaense que a  floresta nativa, está desaparecendo e dando lugar ao reflorestamento de Pinus levado á efeito por grandes empresas madeireiras (multinacionais). Que os danos causados ao meio ambiente e a população quilombola,  pelo modelo adotado na produção de Pinus, com o uso de defensivos químicos o que prejudica a água, o solo e a saúde da população; que os desmatamentos, inviabilizam a preservação e a recuperação da fauna e da flora, maximizando os efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura; que há uma ausência de controle na questão das queimadas feitas pelos fazendeiros para plantio de grama para a criação de búfalos e gado.

Ainda que o plantio de Pinus, está ocasionando a diminuição da vazão de águas nas nascentes dos rios,  que o município de Adrianópolis é um exemplo disto, quando se passa pela estrada  de acesso aos quilombos em muitos trechos se visualiza o rio Pardo e claramente o problema se destaca, o rio que era navegável e uma das formas de transporte de mercadorias utilizado pelas comunidades, de acordo com o "Seu João ", morador do "Quilombo  Porto Velho", a água desaparece dando lugar a uma imensidão de pedras e areia 

De acordo com "Seu Donato", morador do Quiolombo do Varzeão", estão desaparecendo as fontes de água mineral, no município de Dr. Ulysses, e também muitos animais com a intensificação da devastação das matas de Araucária e de campos naturais na região de Ponta Grossa, Curiúva, Telêmaco Borba, Jaguariaíva, Sengés, Campo Largo.

Dizem as comunidades que nas áreas mais atingidas estão concentrados os maiores remanescentes de florestas de Araucária e de campos naturais, porém, que gradativamente estão sendo devastados para dar lugar a plantações do Pinus sendo inegáveis os prejuízos à biodiversidade e ao solo.

Passando pelas estradas de nosso Estado, principalmente nas regiões em que se encontram os quilombos e as comunidades rurais negras tradicionais, testemunhamos o desaparecimento da Araucária dando lugar as grandes extensões de plantio do Pinus. O fato de  os empresários do Pínus, não atenderem às orientações dos órgãos ambientais, e que, têm intensificado o processo de destruição das áreas de campos naturais por meio de queimadas, causando um dano irreparável ao Meio Ambiente.

Quando se observa as imensas áreas de campos naturais, totalmente reflorestadas com Pinus sem nenhuma preocupação por parte dos proprietários em ocultar tal atitude inescrupulosa, muito pelo contrário, pois, quanto maior for a área de campos naturais eliminada, melhor, para os seus interesses, pois as mesmas poderão ser utilizadas para o dito reflorestamento, verifica-se que os danos que estão sendo levados á efeito tão rápidamente contra o Meio Ambiente, e a destruição do Ecossistema, tornam-se irreparáveis.

 

RELATOS

 

Relato 01. Dona Djair - Quilombo de Água Morna / Curiúva diz que “na beira do rio das Antas que divide a fazenda Água Morna (antiga propriedade do quilombo) da Fazenda Klabim (antiga Monte Alegre) estão plantando Pinus e Eucalipto nas margens do rio, plantaram em tudo”.

 

Relato 02. Seu Luiz Rodrigues de Castro - Morador da Comunidade do Varzeão / Dr. Ulysses com 93 anos, diz que “tem terra para todo mundo, que não há necessidade de um ficar sufocando o outro. Ele reclama do plantio de Pinus em volta do cemitério onde os negros estão sepultados. Para ele, isso é um desrespeito à história e à condição humana. Seu Luiz conta ainda que está tendo problemas, pois o caminho que ele percorria há mais de 40 anos na cabeceira do rio Tigre está sendo trancado com arame pelo Sr. Valdomiro de Oliveira (fazendeiro). Agora, para sair de sua propriedade, Seu Luiz precisa atravessar montes, passar por dentro de água e pelas propriedades dos vizinhos”.

 

Relato 03. Quilombo do Guajuvira / Curiúva, relata o Presidente da Associação Quilombola que o Sr. Pedro Henrique Gonn, que esta em terras da Comunidade,  está fazendo a documentação para arrendar as terras para a Klabin plantar Pinus.

 

Relato 04. “A contaminação por chumbo das águas do Rio Ribeira pode aumentar dizem os líderes das Comunidades do Vale do Ribeira: Antonio - João Sura / Fernando - Porto Velho / Tio Mineirinho - Tatupeva / Emídio - Sete Barras / Nilton - Córrego do Franco / Claudinei - (...) / Esmeraldo - São João – o rio é o sangue que dá vida para o Vale mas o lixo deixado pela empresa  o chumbo ficarão debaixo do lago que vai inundar toda a região, só trazendo para nós a doença e a morte”.

 

Constatamos vários problemas nestas comunidades o mais grave, no entanto, é a falta de documentação básica. Muitos sequer têm certidão de nascimento, que é gratuita e assegurada na Constituição Federal — gratuidade é do desconhecimento de todos, ou seja, essas pessoas não existem para o Estado.

A falta dos documentos, Carteira de Identidade, CPF, Título de Eleitor torna essas pessoas excluídas do seu direito de cidadania, impossibilitando-os de reivindicar seus direitos.

Outra questão que aflige os moradores das Comunidades é a falta de registro de suas terras. Essas pessoas habitam a terra há muitos anos, séculos, transmitindo-a geração após geração, porém sem qualquer documentação que torne legal a sua posse sobre as mesmas.

  Verifica-se ainda a situação dos Negros que foram expulsos do Rio dos Patos em Guaraqueçaba pelo IBAMA e pelo IAP em nome da preservação ambiental local. A Comunidade preservou durante cinco séculos a mata, quando da criação do Parque, não se reconhece a sua importância e é colocada para fora do seu território.

 

Relato 05. Seu Leonildo Pereira / antigo morador do Rio dos Patos - Guaraqueçaba diz “o fandango pra nóis era no mutirão prá plantá e depois no mutirão prá coiê, agora não tem terra prá plantá, pegaro tudo que tinha, tiraro tudo da gente, mandaro saí da terra que era nossa, e foi o governo memo que mandô, o IBAMA, se agente tenta vortá lá vem , o IAP, co’a Força Verde intão num tem mais fandango, é muito triste pra nois, fica só na lembrança... ou intão em arguma veis que chama agente prá apresentá nas festa, aqui memo em Guaraqueçaba, em Paranaguá, ou lá em Curitiba, mais num é a mema coisa não...”

 

 

ATUAÇÃO DO INCRA EM TERRAS QUILOMBOLAS

 

Relato 06. Seu João - Quilombo Porto Velho / Adrianópolis diz “quando veio em 1940 para medir a terra quis tirar os negros do lugar, para colocar outras pessoas e dizia ainda que os solteiros não podiam ter terras, somente os casados. Muitos dos negros venderam suas terras para o maior fazendeiro do local (Nino). O funcionário do INCRA, Antonio Gonçalves das Neves, cobrava para titular a terra. Seu João plantou cana em seu terreno, o INCRA, passou para outra pessoa, que exigiu que a cana fosse retirada, seu João perdeu além do terreno, toda a plantação, trabalho duas vezes, primeiro plantando e depois arrancando a cana pois tinha que entregar o terreno limpo, para o novo dono...”

 

sexta 03 abril 2009 15:24


ETNO CONHECIMENTO

Blog de quilombosnoparana :COMUNIDADES DE REMANESCENTES DE QUILOMBOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS NEGRAS DO PARANÁ, ETNO CONHECIMENTO

Na foto Almiro Marcelino Pereira está nos mostrando a árvore do coloral, que dá a semente, que quando madura, pode ser ingerida diariamente. Ela promove o bronzeamento natural da pele e também é boa para o colesterol - por conta disto principalmente,  turistas vindos da Europa para visitar o Parque Nacional, passam no Quilombo de Apepú / município de São Miguel do Iguaçú  e sempre procuram  levar a fruta - foto Clemilda

 

                                     O ETNO CONHECIMENTO 

 

Clemilda Santiago Neto 

Historiadora e Especialista em Educação Patrimonial

 

Correção ortográfica e formatação Fanny Regina de Oliveira 

 

 

O Etno-conhecimento é o que entendemos como sabedoria popular. Os chás que as avós e as tias, nas gerações mais antigas, preparavam quando estávamos doentes é um tipo de conhecimento adquirido ao longo das gerações, assim como todo o conhecimento sobre o ritmo da natureza, o tempo de reprodução dos seres humanos (as parteiras), dos animais, o uso de plantas e ervas curativas, a utilização de alguns tipos e espécies da fauna e flora para uso no cotidiano como remédios na prevenção e cura de doenças e também como alimentos.

Em nosso país, o etno-conhecimento perpassa toda a sociedade e está de maneira contundente embricado com a própria formação do povo brasileiro, tratamos aqui de maneira mais profunda com os Quilombos e as Comunidades Tradicionais Negras no Estado do Paraná, sendo que os relatos aqui registrados foram coletados em visitas realizadas nas comunidades durante os anos de 2004 até 2007.

Percebe-se que a extinção gradativa dessas populações tradicionais, pela falta de estrutura no atendimento as suas necessidades básicas, também pela ação de grileiros na questão das terras em que habitam impedem, inviabilizam a perpetuação e a transmissão deste conhecimento através das gerações, dessas populações.

O fato de que o conhecimento científico também vem tentando se impor, de forma perversa, quando não valoriza e nega o conhecimento tradicional, ao invés de trabalhar em conjunto com as comunidades, beneficiando com certeza nosso planeta.

A biopirataria, que é um problema que precisa ser enfrentado. Precisamos construir uma legislação que venha inibir estas ações porque elas basicamente consistem na expropriação do conhecimento e da sabedoria dos povos tradicionais sobre o uso de plantas, animais e da localização da biodiversidade com a finalidade de utilizá-los comercializando, sem que as populações como os moradores dos Quilombos e das Comunidades Tradicionais Negras tenham algum direito sobre ele ou algum benefício financeiro.

Exemplos do uso de algumas ervas, raízes, frutas verduras e legumes como plantas curativas informações fornecidas por:

·   Dona Joana – João Surá, (Adrianópolis)

·   Dita Freitas - Benzedeira e rezadeira – João Surá (Adrianópolis)

·   Dona Djair – Agua Morna (Curiúva)

·   Dona – Maria Arlete - Adelaide Maria Trindade Batista (Palmas)·   Dona Lucília – Córrego do Franco (Adrianópolis)

·   Dona Sebastiana (Córrego das Moças) Adrianópolis,

 

                         O USO CURATIVO DAS ERVAS

NOME     /    FINALIDADE (uso)   /    PREPARO

Boldo / estômago, nervos / chá

Alecrim / nervos / chá

Cânfora / barriga e estômago / chá

Folha de laranja com alho / gripe / chá

Capim limã ou Capim cidreira / nervos e relaxar / chá

Maçanilha / para criança dormir bem / chá

Quebra pedra / pedra nos rins / chá

Rubim / cólica de fígado / chá

Milomen / estômago e fígado / chá

Losna / vermes / chá

Pacová / estômago / chá

Erva cidreira / sono e repouso / chá

Erva doce com gemada / combater a fraqueza / chá

Quininha / fígado / chá

Pitangueira / pressão alta / chá

Melissa / calmante / chá

Pata de vaca / diurético / chá

 

                         O USO CURATIVO DAS RAÍZES

NOME     /    FINALIDADE (uso)   /    PREPARO

Unha de Gato / tirar a canseira / macerado, água fria morna

Aracacú / para os nervos / macerado, água fria morna

Pau tenente José / colesterol, gordura, diabetes / macerado, água fria ou morna

Cipó Suma / depurativo do sangue / macerado, água fria ou morna

Espinheira Santa / pressão alta limpar o sangue / macerado, água fria ou morna

Taruma (árvore) / pressão alta e o diabetes / macerado, água fria ou morna

Sassafraz / reumatismo / macerado, água fria ou morna

 

   

           O USO CURATIVO DAS FRUTAS VERDURAS E LEGUMES

NOME     /    FINALIDADE (uso)   /    PREPARO

Abacate / diarréia e reumatismo / chá da casca da fruta

                vermífugo                     / chá do caroço torrado

Abóbora / corrimentos útero e ovário / chá da casca

Alface / nervosismo / chá das folhas

Abacaxí / tosse / /infecção garganta / xarope da casca

Alfavaca / estomago / chá

Amora vermelha / pressão alta / chá das folhas

Arruda / abortivo / chá das folhas

Avenca / tosse, infecção, garganta / chá das folhas

Alho Porró / expectorante / macerado, água fria e quente

Banana / queimadura / casca na queimadura

Berinjela / cozida / males do fígado

Café / pressão baixa / líquido

Carqueja / pressão alta e diabete / chá

Cenoura / espinhas / cozida, salada crua

Coentro / gazes / chá, tempero

Couve / anemia / cozida, salada, suco

Cebola / tosse / xarope

Eucalipto / gripe, infecção das vias aéreas / chá, Xarope

Goiaba / diarréia / chá da casca, fruta

Ipê Amarelo / limpar o sangue / chá

                      analgésico / chá

Ipê Roxo / hemorróida / chá

Hortelã / estômago, intestino / chá

Laranja / gripe / chá da casca, suco

Limão / gripe / chá da casca, suco

Maçã / nervos / chá da casca, suco, fruta

Mamão / intestino preso / .fruta

Pepino / melhorar a pele / passar na pele

Pitanga / vermífugo / chá das folhas, fruta

sábado 28 março 2009 23:55


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